Na nossa fugaz existência existem muitos objetos que vêem ao nosso encontro. Nesses objetos não se pode encontrar nada além do que ele pode oferecer (uma caneca por exemplo, ela pode ser um vaso, uma espécie de porta-velas, um brinquedo para o lúdico da criança dar sentido próprio naquele momento, mas por si só, não podemos atribuir outros sentidos como avião, câmera, etc.)
Enfim a caneca que papai usava, a colher usada para mexer o grande panelão de sopa da mamma, aquele perfume da amada... todos esses supostos objetos, transcendem a si (!).
Neles não há uma essência do além, mas nele se encontra o que há de mais Sacro - a memória - sob seu velar pode-se achar amor, ódio, saudade...
Para os olhos profundos ela é saudade, é amor, é permanência, para os olhos supérfluos, um objeto substituível...
Pra vocês deixo outro tesouro que não é meu, a saber:
O sacramento da caneca
Há uma caneca de alumínio. Daquele antigo, bom e brilhante. O cabo já está partido, mas dá-lhe um ar de antiguidade. Nela já beberam os 11 filhos, desde pequenos a grandes. Ela acompanhou a família nas muitas mudanças que fez. Da aldeia para a vila, da vila para a cidade. Houve nascimentos. Houve mortos. Ela participou de tudo. Andou sempre connosco. É a continuidade do mistério da vida na diferença das situações vitais e mortais. Ela permanece. Sempre brilhante e antiga, Creio que quando entrou em casa já devia ser velha. Velhice que é juventude porque gera e dá vida. Peça central da cozinha.
Sempre que se bebe nela não se bebe água. Mas o frescor, a doçura, a familiaridade, a história familiar, a reminiscência da criança sôfrega que sacia a sede. Pode ser qualquer água. Nesta caneca, ela é sempre fresca e boa. Em casa todos os que matam a sede bebem desta caneca. Como num rito todos exclamam: Como é bom beber desta caneca ! Como aqui a água é boa ! E trata-se da água que, pelos jornais, vem maltratada. Vem do rio imundo da cidade. Cheia de cloro. Mas por causa da caneca torna-se boa, saudável, fresca e doce.
Sempre que se bebe nela não se bebe água. Mas o frescor, a doçura, a familiaridade, a história familiar, a reminiscência da criança sôfrega que sacia a sede. Pode ser qualquer água. Nesta caneca, ela é sempre fresca e boa. Em casa todos os que matam a sede bebem desta caneca. Como num rito todos exclamam: Como é bom beber desta caneca ! Como aqui a água é boa ! E trata-se da água que, pelos jornais, vem maltratada. Vem do rio imundo da cidade. Cheia de cloro. Mas por causa da caneca torna-se boa, saudável, fresca e doce.
O filho regressa. Percorreu o mundo. Estudou. Chega. Beija a mãe. Abraça os irmãos. Matam-se saudades sofridas. As palavras são poucas. Os olhares longos e minuciosos . É preciso antes, beber o outro para amá-lo. Os olhos que bebem falam a linguagem do coração. Só depois do olhar a boca fala de superficialidades: Como ficas-te gordo! Como é bonito! Como ficou adulto! O olhar não fala nada disso. Ele fala o inefável amor. Só a luz entende. " Mãe, estou com sede! Quero beber da velha caneca!"
E o filho bebeu de tantas águas. As águas da Alemanha, de Inglaterra, da França, a boa água da Grécia. A água das fontes cristalinas dos Alpes, do Tirol. Tantas águas... Mas nenhuma é como essa. Bebe uma caneca. Não para matar a sede do corpo. Esta as outras águas matam. Mas a sede do arquétipo familiar, a sede dos penatos paternos, a sede fraternal, arqueológica, das raízes donde vem a seiva da vida humana. Esta sede só a caneca pode matar. Bebe uma primeira caneca. Sofregamente. Terminou com um suspiro longo, como quem mergulhou e veio à tona. Depois bebe outra. Lentamente. É para degustar o mistério que a caneca contem e significa.
Leonardo Boff







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